terça-feira, 25 de setembro de 2012

Política Contemporânea - O Lento Processo de Despertar

Primeiro, a boa notícia: sabe toda aquela estranheza e inconformidade que você sempre sentiu em relação a políticos, partidos e campanhas eleitorais? Pois você estava certo. Isso tudo realmente não funciona e não tem salvação, precisa ser substituído urgentemente por algo melhor. Agora, a má notícia: sabe tudo aquilo que você deveria fazer - acompanhar os problemas da sua cidade e país, participar das discussões, construir soluções e fazer sua parte - mas nunca fez? Pois é, para melhorar alguma coisa, você terá que começar a fazer...
Cidadão comum e a Política: "não quero ouvir nem ver nada, e também não falo sobre isso - quando mudar me avisem..."
Imagino que quase todos sintam quase o mesmo que eu quando vejo campanhas eleitorais - como a atual - e pensem mais ou menos o seguinte: "que porcaria". E é isso mesmo. As campanhas são uma porcaria, as gestões são medíocres e a esmagadora maioria dos personagens não mereceria a oportunidade nem de administrar uma reunião de condomínio. E a cada eleição vai crescendo a sensação de que isso não tem jeito, não vai melhorar nem mudar. Pois, mantidas as condições gerais em que o processo político acontece, não vai mesmo.

O problema é que esse processo não existe por acaso. Se o processo político foi colocado nas mãos dos partidos e lobistas, foi a própria sociedade que assim permitiu. O indivíduo comum faz questão de dizer que não se envolve com política, não gosta e não quer saber a respeito. Bem, todos nós nos envolvemos com política de alguma forma, queiramos ou não, basta viver em uma sociedade. Aí veio o senso comum e criou essa entidade distante, "a Política", coisa de partidos e lobistas, para que os indivíduos possam extravasar sua alienação e viver confortavelmente com ela.
Sempre bom poder contar com alguém realmente capaz para cuidar de nós e de nossos problemas...
O tal personagem político, hoje em dia, tem como função social, aos olhos do indivíduo comum, absorver a responsabilidade e culpa pelos problemas e carências da sociedade, de modo que o indivíduo sinta-se livre para apenas reclamar e lamentar - jamais fazer efetivamente nada, nem sequer cobrar um melhor desempenho dos políticos que ele mesmo responsabiliza. Talvez isso explique porque nove em cada dez gestores públicos são reeleitos no Brasil - sendo que oito em cada nove fazem gestões medíocres, ou até pior.

Em um país com políticos tão ruins e de mau desempenho, reeleição deveria ser uma rara exceção. Se isso não acontece, é devido, primeiro, ao conformismo do cidadão, que prefere deixar as coisas ruins para continuar reclamando sem esperar de fato nada muito melhor, tendo um agente público medíocre a quem responsabilizar; segundo, à alienação generalizada que acompanha um processo eleitoral, que faz com que muitos votem no nome em evidência por ser mais fácil de lembrar ou para não se dar ao trabalho de avaliar outro nome qualquer.

Nossos governantes são sempre escolhidos com muito cuidado e olhar crítico...
Qualquer saída dessa situação passa por uma mudança radical nessa postura distante do cidadão. Se a raiz do problema é deixar para outros a responsabilidade que é essencialmente nossa, o cerne da solução é tomar de volta essa responsabilidade. Não apenas cobrar permanentemente o desempenho dos agentes públicos, mas assumir o direito de lhes dizer o que fazer, quando e como. E, muitas vezes, sempre que possível, efetivamente fazer com seus próprios meios.

Já escrevi antes sobre a tendência do trabalho colaborativo e da política ao estilo "faça você mesmo", recursos possíveis a uma sociedade em rede, e acho isso suficiente para ilustrar de que forma as pessoas assumiriam a frente no processo político de forma produtiva e (auto)organizada, e não em uma baderna generalizada - coisa que um político profissional gostaria que acreditássemos. Se hoje precisamos de "tutores" exercendo a política por nós, é porque não a praticamos e nos habituamos a isso. Mas se quisermos nos livrar desses tutores, temos que abandonar essa zona de conforto - que no fundo não é nada confortável...



O que falta às pessoas não é poder para mudar as coisas, é a consciência de ter esse poder.
A abstinência política da maioria da nossa sociedade atual é assustadora, e a distância que muitos mantêm em relação a qualquer discussão mais séria torna difícil quebrar essa postura. Quer dizer, para começar a conscientizar politicamente uma pessoa, é preciso que ela já tenha a consciência de que é importante conscientizar-se. Que entenda, pelo menos, que "política", em essência, não é aquela negociação de bastidores entre candidatos, marqueteiros e lobistas, mas sim a discussão permanente sobre os problemas da sociedade, suas alternativas de solução e o processo de construção do entendimento entre as pessoas - tudo o que há de mais natural e saudável em uma vida em sociedade.

Para quem parte do princípio de que sim, o caminho é esse - retomar a ação direta nas discussões e decisões -, a percepção é de que esse processo se dá de forma angustiantemente lenta. Lenta e silenciosa, ombro a ombro, consciência por consciência... E a corrida é para que consigamos formar massa crítica suficiente antes que o sistema atual definitivamente entre em colapso pela descrença e inoperância, e que as pessoas se voltem em desespero para opções ainda mais retrógradas - bem que os tutores gostariam disso.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Ruas Esquecidas - O Abandono do Espaço Urbano

Quem já não ouviu uma pessoa mais velha dizendo "no meu tempo, brincávamos no meio da rua" ou "havia uma pracinha no lugar desse shopping center" ou ainda "saíamos a pé de noite porque era seguro"... Sim, há muito de saudosismo aí, é natural do ser humano. Eu mesmo não sou tão velho e fazia várias coisas "no meu tempo". Mas há uma constante nessas histórias de antigamente que podemos comprovar ainda hoje: a relação das pessoas com seu próprio meio físico está esfriando. Estamos cada vez mais distantes do próprio espaço em que vivemos.


"Antigamente, as ruas eram mais bonitas e agradáveis..."

As ruas são apenas meios de passagem, e quanto mais rápido se passar por elas melhor. Praças e recantos verdes são zonas de esquecimento, nem sequer as vemos quando passamos. A maioria dos espaços públicos de uma típica cidade grande são como "não-lugares", não existem de verdade, não são usados, não são lembrados. Abandonamos os espaços de uso comum para viver em espaços privados: a casa, o condomínio, o escritório, o shopping center - e o próprio carro, que é a maneira de ir de um espaço privado para outro sem deixar de utilizar uma espécie de espaço privado.

As razões dessa realidade não são de todo ruins. A tecnologia, por exemplo, nos permite fazer muito sem precisar sair da cama. A qualificação do trabalho leva mais gente para dentro de escritórios ou laboratórios. A melhoria do poder aquisitivo permite que mais gente tenha carro, computador, uma boa casa.

Mas será que não estamos perdendo pelo caminho algum tipo de essência? Não deterioramos as relações humanas quando substituímos o contato direto pelo remoto? Tudo aquilo que chamamos "progresso" e "desenvolvimento", precisaria mesmo cobrar o preço que cobra da natureza e do próprio habitat de convívio humano? Quando aplaudimos o projeto de um novo shopping ou de um conjunto de espigões sobre uma área verde - de preferência junto a um lago ou rio, para valorizar a vista, apesar de que shoppings não têm vista -, chamamos de progresso e tachamos de atrasados os que são contra - ecochatos, ecobobos. E se a noção de progresso dos outros for diferente da nossa? O mundo é de todos. Estamos respeitando a diversidade ou simplesmente patrolando o espaço dos outros à base de concreto?


Em raros momentos de contato com seu meio, as pessoas lembram o quanto isso é importante. Depois voltam a esquecer.
Essa tendência de enclausurar-se - de casa pro trabalho e vice-versa, de preferência dentro de um carro durante o deslocamento - já foi chamada "vida no casulo". Não me parece algo muito natural para um ser humano. Não é nem para a borboleta, depois que nasce. De alguma forma o ser humano encantou-se com os confortos e facilidades modernos e passou a achar todo o resto antiquado, ao invés de compatibilizar as coisas. Pois as mesmas facilidades que levam as pessoas a viver em casulos serviriam para que as pessoas trabalhassem menos, se ocupassem menos com deslocamentos, cuidados com casa ou carro, deixando mais tempo para aquilo que realmente significa na vida - passear, conviver, curtir, festejar.

Algum urbanista já disse que uma rua movimentada é uma rua segura. Um espaço que é visto é cuidado, naturalmente. As pessoas o percebem e se importam com ele. No Brasil, percebemos clara relação entre o abandono dos espaços e o aumento da sensação de insegurança. E logo forma-se um círculo vicioso, e passamos a achar que é a insegurança que nos empurra para dentro de casa. Mas ruas movimentadas não são inseguras. Há barulho e agitação, alguns não gostam, mas não há ameaça à integridade física - elemento gerador da sensação de insegurança.

Algum outro também disse que um espaço bem cuidado inspira as pessoas a preservá-lo em vez de depredá-lo. Aqui temos outro círculo vicioso. Preferimos pensar que não vale a pena cuidar dos espaços porque serão depredados, e aí eles ficam cada vez mais degradados e convidativos às más intenções. Como não apreciamos os espaços que vemos - porque não são bem cuidados -, não os utilizamos e passamos a ignorá-los. Tornam-se "não-lugares", cantos obscuros no meio da cidade.

Quando tomadas pelas pessoas, as ruas ganham vida e tornam-se espaços de convivência.
Tem ainda mais alguém - não sou de guardar nomes - que diz que a boa convivência humana se dá pelo exercício. Quanto mais exercitamos o convívio com nossos semelhantes, mais os compreendemos, tornando-nos mais tolerantes com as diferenças e capazes de nos comunicar com os demais. Se isso funciona em ambos os sentidos, também seremos melhor compreendidos e tolerados em nossas próprias diferenças. Novamente, um círculo vicioso: quanto menos as pessoas convivem, mais intolerantes e distantes elas ficam, tornando ainda mais difícil a convivência. Vemos isso hoje, grupos que se odeiam e disputam interesses por causa de diferenças muitas vezes mínimas.

Chegamos a um ponto hoje em que o desenvolvimento das grandes cidades passa necessariamente pela retomada do espaço urbano, seja para cuidar melhor dele, seja para nos aproximar de nossos semelhantes, para trocar idéias, impressões, unir esforços na construção de novas soluções. Na base da ocupação civil, enfrentar a insegurança urbana, a degradação e abandono dos espaços, a intolerância e a precariedade dos serviços públicos. Dentro de nossos casulos temos todas as ferramentas para iniciar esse processo, mas ele só será efetivo quando se transformar em ação física.

Afinal, quem não sente falta de melhores opções de locais para curtir um pôr-do-sol junto ao rio, tomar uma cerveja com amigos em uma mesa na calçada, passear de bicicleta por um parque florido, ir a pé até um cinema de bairro e voltar para casa tomando um sorvete... o shopping center lhe parece realmente uma alternativa à altura?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Cidades Contemporâneas - Desatando o Nó da Mobilidade

Esse post é uma continuação direta do anterior, quando tentei estabelecer relação entre o problema da mobilidade urbana e o papel central do automóvel no transporte urbano e concluí que, para se construir novas soluções, é necessário abandonar esse velho modelo. Agora, pretendo examinar as alternativas.
Metrô de Barcelona: sistemas de transporte sofisticados para cidades modernas.

A engenharia de trâfego tem papel importante para gerar uma infraestrutura viária adequada e bem planejada, mas depois que a cidade já está formada e povoada, o essencial é racionalizar o espaço consumido pelo trânsito, para não tirá-lo das pessoas - personagens que deveriam sempre ter a preferência dentro de uma cidade. Vejo duas maneiras de racionalizar espaço: favorecer veículos menores e mais leves; ou favorecer veículos com maior capacidade de passageiros. O automóvel particular, geralmente grande demais e com passageiros de menos, não se enquadra em nenhum dos casos.

O transporte urbano será sempre multimodal, e nem precisa ser diferente. Não é necessário abolir um meio de transporte em favor de outro, apenas distribuir o espaço e a prioridade conforme o retorno social de cada um. Carros continuarão existindo e sendo usados - não se preocupe com isso. Mas serão usados cada vez menos, por menos pessoas e em menos situações. Ou seja, se você realmente acha que nunca terá como abandonar seu carro, pelo menos não terá que dividir o trânsito com tantos outros carros. Bom, né?

O melhor exemplo de veículo menor e mais leve é a popular bicicleta. A diferença de dimensão entre uma ciclovia (mesmo uma das boas) e uma avenida (mesmo uma das ruins) dispensa comentários. A interação social que ela promove, as vantagens para a saúde física e mental, a facilidade para aquisição e a redução de poluição são outros aspectos positivos facilmente observáveis. Não tenho dúvidas de que uma cidade moderna que queira oferecer qualidade de vida precisa ter uma boa rede cicloviária. Contudo, bicicletas não servem para todos, nem para qualquer situação. Além do que, se todos usassem, a demanda por espaço também acabaria crescendo. Ou seja, não é essa a solução final.

Transportes coletivos de qualidade redefinem o cenário urbano - para melhor.

Para multiplicar o espaço urbano disponível, o jeito é fazer com que muitas pessoas acessem um mesmo transporte, ou seja, transporte de massa. Um transporte que sirva à grande maioria das pessoas na maior parte do tempo é o que viabiliza que outros meios sejam utilizados, de forma complementar ou alternativa, sem que grandes espaços sejam consumidos com novas vias. Pelo seu retorno social e papel estratégico, o transporte de massa deveria ser priorizado sempre, e muito acima de todos os outros, assim como também deveria ser altamente valorizado pelas pessoas.

Não importa muito
se esse transporte será sobre rodas ou trilhos, subterrâneo ou de superfície - geralmente será um misto de tudo. O que importa é que ele seja visto como bom e funcional pelos potenciais usuários. No Brasil, a visão geral é de que transporte coletivo é ruim, desconfortável, demorado e caro demais para a qualidade que oferece. Não precisa ser assim. Tecnicamente, é possível oferecer um bom nível de conforto sem grande custo, e nossos sistemas de transporte poderiam ser organizados de forma muito mais funcional, consumindo menos tempo de deslocamento em média e até reduzindo o custo.

Uma rede de linhas bem distribuídas no mapa da cidade e interconectadas será sempre mais eficiente que um monte de linhas soltas e sobrepostas. Não é inteligente, por exemplo, cada bairro ter sua linha até o centro em uma cidade com mais de cem bairros. Quem já utilizou uma rede de metrô sabe que não é essencial ir da origem até o destino com uma única linha. Trocar de linha no meio da viagem é perfeitamente aceitável se essa troca for rápida e tranquila. Imaginando que há ao menos uma linha na origem e outra no destino e imaginando que todas as linhas se conectam, uma combinação de duas linhas é suficiente para fazer qualquer trajeto dentro da rede. Ao invés de mais de cem linhas diferentes, haveria poucas dezenas, apenas o suficiente para cobrir o mapa da cidade. Redistribuída a frota de veículos em menos linhas, seriam mais veículos para cada uma, reduzindo portanto o tempo de espera - o que compensa com sobra o tempo perdido na troca de transporte.
Uma hipotética rede de metrô em Porto Alegre (fonte aqui). Utopia? E se substituirmos algumas linhas por trams ou BRT's, mantendo o traçado e o princípio de integração e interconectividade?

Seguindo a filosofia das grandes redes de metrô - que pode ser extendida para transportes de superfície, por que não? -, cada linha não se preocupa em ligar dois pontos em especial, mas sim em cortar a cidade em algum sentido, de modo que seja abrangente e que corte as demais linhas em algum ponto mais ou menos central, permitindo as conexões. Não é essencial, mas é importante que esses trajetos sejam servidos por vias exclusivas, o que aproxima o transporte de superfície da funcionalidade de um metrô, principalmente em pontos onde outros meios de transporte disputam o espaço - a preferência deve ser sempre daquele que leva mais pessoas, ou seja, o coletivo.

Esse rede deve ter um número tal de linhas e estações que permita percorrer toda a cidade - tanto bairros centrais como periferias -, sem um número muito grande de estações por linha - o que tornaria a linha mais lenta - mas garantindo que haja sempre uma estação próxima de cada ponto da cidade - à distância de uma caminhada curta. Havendo sempre uma estação próxima, sendo o tempo de espera curto e o tempo de deslocamento também - mesmo quando há troca no meio do trajeto - e sendo o transporte confortável e barato, pode-se imaginar que a grande maioria optará pelo transporte coletivo, liberando grande espaço no trânsito da cidade. É tecnicamente viável, há exemplos pelo mundo afora - infelizmente, nenhum no Brasil.

Uma cidade baseada em tranporte de massa tende a aproveitar seu espaço urbano de forma mais harmônica.

Um ótimo uso para esse espaço que será liberado são as ciclovias. Vias peatonais (para pedestres) também são importantes em áreas mais centrais, de lazer ou de grande circulação de pessoas e serviços. Se ciclistas e pedestres forem devidamente conectados a estações da rede de transporte coletivo, aí teremos a situação ideal. Estamos falando de uma cidade mais humana, acolhedora, agradável, mas também estamos falando de menos poluição, mais acessibilidade, mais circulação (que gera mais segurança nas ruas) e até mesmo uma maior atividade econômica, graças a um maior acesso a comércio, serviços e entretenimento. Sem falar no maior contato humano diário, fundamental para a manutenção do tecido social que governa e desenvolve uma cidade.

A implementação dessa rede de transporte não é tão cara ou demorada quanto se diz. Trilhos e linhas subterrâneas são importantes, mas não são esseciais para essa filosofia: transporte integrador, conectado, bem distribuído e de circulação frequente. O que falta não é dinheiro nem tempo. Nem idéias, que podem ser copiadas e adaptadas. Falta a noção de prioridade e de estratégia de parte da própria sociedade, ainda presa à idéia de que o importante é ter avenidas duplicadas para usar seu carro. Mas velhos problemas exigem novas soluções.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cidades Contemporâneas - O Nó da Mobilidade

Considerando que problemas mais sérios - educação, saúde, pobreza - não são, em essência, urbanos - mas sociais -, não hesito em dizer que o maior problema urbano atual é a mobilidade. Mesmo para cidades desenvolvidas e bem planejadas, garantir uma boa mobilidade a residentes e visitantes é um desafio. Para cidades menos desenvolvidas, a situação fica próxima do caos.

A fantástica engenharia de tráfego moderna

Enquanto algumas cidades pelo mundo têm desenvolvido projetos inspiradores, a realidade brasileira me parece desesperadora. Algumas cidades estão estagnadas, outras estão patinando há anos em projetos que não avançam, outras ainda estão andando para trás, investindo naquelas soluções que na verdade se transformam em problemas - como o resto do mundo já descobriu. Não é um privilégio das grandes cidades, com seu caos típico de áreas metropolitanas: cidades pequenas e médias só têm seus problemas reduzidos à medida em que as distâncias são menores, mas as soluções de transporte costumam ser terrivelmente pobres.

Parece que o transporte é tratado como uma questão meio particular, cada um que se vire como puder. Independente do que digam, é o que os governantes municipais demonstram em suas ações e prioridades. Mas não há dúvida de que essa é uma questão das mais estratégicas na vida de uma cidade. As condições de transporte e mobilidade podem definir a degradação ou recuperação de um bairro, a relação da comunidade com os espaços públicos, o acesso a oportunidades de trabalho, as alternativas de moradia e, se o interesse do poder público for apenas esse, o desempenho econômico local, tanto da construção civil como do comércio e serviços.

Mobilidade também é uma necessidade social básica. É a acessibilidade para todos - inclusive para aqueles com necessidades especiais, mas também para os demais. Pode recuperar comunidades marginalizadas por exemplo. Além do mais, a possibilidade de as pessoas circularem pela cidade, acessando serviços e espaços de lazer e interagindo entre si, multiplica o capital social, principal riqueza atual.

Pois bem, se há a necessidade social e potencial interesse econômico, resta o problema da capacidade do poder público, sempre lento e muito pouco criativo. Melhor não esperar por ele, até agora não deu certo. A própria sociedade precisa construir novas soluções para, depois, impôr ao poder público suas prioridades. Agora, nossa sociedade tem uma idéia clara do que precisa - ou, ao menos, em que direção ir? Creio que não.
Mobilidade baseada em carros: talvez com mais algumas ruas, viadutos...

O advento do automóvel gerou um modelo de urbanização e transporte que caracteriza bem o século 20. Do ponto de vista da mobilidade, o século 20 pode ser visto como a história da ascensão e apogeu do automóvel. Não duvido que tenha revolucionado o mundo e a vida das pessoas. Fantástico. Mas já estamos em outro século. E agora? Pois, se o automóvel ditou todo o processo de urbanização das grandes cidades no último século, não chega a ser injusto atribuir-lhe culpa pelos problemas atuais desse modelo urbano.

Para começo de conversa, o carro é excludente e limitante. Nem todos podem ter um. Nem todos querem, ou gostam. E mesmo que todos devessem, sim, ter e usar um carro, não haveria espaço para todo mundo. A abertura de avenidas, viadutos, túneis, a ponto de permitir tamanha demanda de espaço, degrada o espaço urbano e dificulta a circulação, desmotivando as pessoas a saírem de casa e interagirem em espaços públicos - o que compromete o próprio funcionamento da cidade e a geração do capital social.

Pedestres são criaturinhas que insistem em atrapalhar o trânsito - alguns pagam com a vida.

Ainda não entendemos a inviabilidade desse modelo. Continuamos reclamando do excesso de semáforos, da falta de viadutos, dos tais pedestres que insistem em sair à rua e atrapalhar o trânsito - e ao mesmo tempo compramos carros maiores, mais rápidos, mais agressivos. Exigimos mais espaço para estacionar, combustível mais barato, IPI reduzido - mas reclamamos da degradação do espaço público, da poluição e do tamanho dos congestionamentos. Seguimos amando o carro e odiando os efeitos de seu uso.

Carro é uma invenção genial, mas não foi feito para ser usado o tempo todo por todos para tudo - e ponto. Então é essencial que haja alternativas. Pela demanda de espaço típica do automóvel, é essencial desincentivá-lo para permitir espaço às alternativas. Para não forçar uma multiplicação do espaço consumido com veículos, tira-se a prioridade do veículo individual (ou quase individual) para dá-la aos outros. Essa é uma grande mudança de cultura, já que o automóvel está enraizado no estilo de vida.

Carros são um pouco egoístas com relação ao espaço - como fazer para caber todos?

Entender que é necessário mudar um modelo do século passado (e rever o papel do principal elemento desse modelo: o automóvel particular) para criar novas soluções é o primeiro passo. O contrário seria insistir nas mesmas estratégias, produzindo os mesmos resultados e problemas. Aí exige-se de cada um desapegar-se de sua idéia de conforto imediato (que muitas vezes fica só na idéia) para abraçar a possibilidade de soluções novas, melhores e para todos. Já há soluções em construção e dá para apostar em sua viabilidade. Mas vou deixar para continuar o assunto na próxima postagem.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Respeito à Individualidade - Essencial, Natural e Não Faz Mal.

Sejamos diretos: você é um reaça. Sim, reacionário, sendo bem francos. Reaça mesmo. Tem sérias dificuldades em respeitar a opinião e a liberdade alheias, e acredita sinceramente que não pode haver visão de mundo melhor do que a sua. Toma por missão impor seu sistema de crenças e valores, pois no fundo faz questão que todos sigam seu sistema para que não possa surgir um melhor - o que obrigaria você a reconhecer que suas crenças e valores não eram assim tão perfeitos.

Impôr sua vontade aos outros parece divertido, certo? Só para você...

Mas não se envergonhe tanto - um pouco sim, mas não tanto. Parece que você é maioria hoje em dia. Não lhe exime de culpa pelo que você e os seus fazem com o mundo, mas ao menos divide a culpa entre todos. É provável que sempre tenham sido maioria, mas muitos permaneciam meio adormecidos, sem muita vontade de se envolver. Foi quando seres de espírito livre e entusiastas do livre pensamento começaram a se articular pelo mundo que essa maioria adormecida acordou assustada. Fazendo jus a seu rótulo, levantam-se em reação a um sopro de mudança que recém começava a ganhar força.

Quanto mais se pensa a respeito, mais curioso parece esse comportamento de querer interferir na vida dos outros, ditar regras, proibir, obrigar. Há um aspecto religioso inegável aí, senão direto, ao menos uma herança recente do pensamento típico de nove entre dez religiões do mundo: a necessidade de promover seu estilo de vida sobre os outros, como uma obrigação moral de fazer o mundo funcionar como você acha que deve. Afinal, ao íntegro não se permite conviver com o ímpio.

Mas a religiosidade está em queda, a postura reaça não. Há outros ingredientes. Intolerância talvez: "O que é diferente não pode ser bom e, além disso, me ameaça". Ignorância com certeza: "não sei o que é isso e não quero saber, não entendo e fico com raiva de quem entende". E possivelmente algo de competição: "a visão do outro não pode ser melhor que a minha, e seu estilo de vida não pode ser melhor que o meu, então nem tente, espertinho". Não interessa se o outro não está competindo com ninguém. Para você reaça, o que importa é o seu ponto de vista. Mas não se ofenda se eu insinuo que você é ignorante ou intolerante, encare isso de frente e prove que estou errado.

Claro que você tem direito a seu ponto de vista tanto quanto qualquer outro, e claro que você pode ter razão em muitas coisas enquanto outros não têm. O problema é essa sua idéia de que o mundo é dual, e esse raciocínio linear de que o que não é bom só pode ser ruim, o que não está certo é errado. A realidade é um pouco mais complexa do que isso. Não há uma resposta certa em um problema que afete várias pessoas, já que as pessoas são diferentes e precisam de soluções diferentes, e uma solução coletiva, para ser válida, deve sofrer um processo de composição e, sempre que possível, consenso. Ou seja, ninguém está propriamente certo ou errado.

Livres de preconceitos, os indivíduos tendem a alcançar consenso em todos os seus problemas comuns, sem prejuízo de sua individualidade.


Não é tão difícil quanto você pensa. Na grande maioria dos problemas coletivos, as soluções convergem naturalmente para um consenso, uma solução composta que provavelmente será melhor que as idéias iniciais que a geraram. Problemas coletivos são essencialmente práticos e as soluções necessárias são essencialmente técnicas. Não havendo preconceitos e reservas morais, resta equacionar as diferentes necessidades e preferências envolvidas para que todas sejam atendidas na mesma medida. E se todos se dedicassem em tempo e energia para essas questões práticas, muitas delas seriam resolvidas em pouco tempo.

O caso é que você e os seus não conseguem se ater a questões práticas. Dispersam sua energia - e a dos outros - envolvendo-se em tudo aquilo que não lhes diz respeito: o que os outros fazem ou deixam de fazer, como relacionam-se entre si, o que fazem com seu corpo. Não, você não é obrigado a concordar com nada que os outros façam, mas talvez eles também não sejam obrigados a pedir sua concordância. Invadiram seu espaço de alguma maneira? Isso é um problema. Mas se ninguém invadiu seu espaço e mesmo assim você mete o bedelho, bem, então você é que está invadindo. Tão errado quanto, ou talvez pior. Nunca julgue ou condene por antecipação. As pessoas devem responder por seus atos, não por suas preferências. Não conclua que um determinado comportamento ou estilo de vida vai levar a algum tipo de falta ou transgressão, essa relação pode fazer sentido para você, mas não para os outros. Lembrando: as pessoas são diferentes.

Sabe o mais engraçado? No fundo você gostaria de se relacionar melhor com as pessoas, com sua comunidade, com o mundo, e poderia fazer isso facilmente, respeitando cada indivíduo em seu devido espaço e buscando sempre uma convivência harmônica e construtiva, tanto em idéias como em ações. Mas prefere oferecer aos outros seu preconceito e sua intolerância, e aí estraga tudo. Bem, na verdade não é engraçado.

Não sinta-se ofendido ou provocado a uma briga. Sinta-se intimado a uma reflexão saudável sobre a forma como se relaciona com o mundo e com as diferenças entre indivíduos. Sua idéia de mundo perfeito é absurda, pois não adianta ele ser bom só para você. Claro, deve servir também para você, o que significa que os outros devem respeitar seu espaço e suas preferências. Mas não espere que lhe dêem o exemplo, faça isso você também.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Importante é Competir - Ou Não

Certo, em tempos de olimpíada, um artigo oportunista, mas também oportuno - e vice-versa. E há que se considerar o fenômeno de que tais questões só são lembradas e discutidas no Brasil a cada quatro anos. Então, antes que elas simplesmente deixem de existir pelos próximos tempos, vamos a elas...
Medalha olímpica: aparentemente, símbolo e objetivo do bom investimento de um país em esporte.

Não, eu não cobro do Estado mais verbas para o esporte. E não, eu não me emociono com a história triste de nove em cada dez atletas brasileiros, que sofrem todas as agruras que a vida pode oferecer para, embuídos de um patriotismo a Galvão Bueno, levar o nome de nosso país à glória esportiva. Certo, entendo os valores do esporte e sua importância cultural para uma sociedade. Entendo o lado positivo de um evento como as Olimpíadas. E até entendo esse espírito de competição que se desenvolveu entre os países - só não concordo nem apóio.

Não sei desde quando existe a idéia de um quadro de medalhas, ranqueando os países entre si por número de medalhas, mas me parece algo inútil, infeliz e, quando se pensa a respeito, absurdo. Medalhas de ouro, prata ou bronze são meras convenções para classificar os primeiros colocados em uma competição, o que não significa que medalhas conquistadas no futebol, atletismo, levantamento de peso, tiro ao alvo e esgrima sejam de alguma forma equivalentes e passíveis de uma contabilidade. É como somar maçãs com bananas. Aliás, na grande maioria das modalidades - e principalmente naquelas tradicionalmente "olímpicas" - prevalece o talento e a preparação do indivíduo, e pouco importa onde esse indivíduo nasceu. Contabilizar uma vitória individual como simplesmente mais uma medalha no quadro de um país desmerece a conquista do atleta, e que pertence a ele antes de mais nada.
Competição entre países: alguns no amor e na vontade, outros superequipados e supercondicionados.
A nacionalização da competição esportiva pode ser entendida no interesse dos governos e regimes de fazer autopropaganda e de se promoverem de forma barata. Afinal, ninguém há de crer que vitórias esportivas efetivamente melhorem a vida de uma sociedade ou resolvam problemas estruturais de um país. Mas a estratégia funciona. As pessoas ficam felizes, se sentem mais patrióticas, realizadas. Mesmo em caso de derrota, ainda resta como recurso trabalhar o sentimento de esperança no futuro próximo, de preferência com mais trabalho e empenho para que o país atinja suas metas: títulos e medalhas.

Daí se explica esse raciocínio do investimento público, não na prática esportiva ou na sua promoção, mas na competição em si e em seus resultados - e na sua promoção. Não vejo nenhuma outra forma justificável de investimento público em esporte que não seja o acesso direto das pessoas - principalmente jovens e crianças e mais principalmente aqueles mais excluídos - à infraestrutura necessária para a prática esportiva. Produzir medalhistas olímpicos pode até promover a prática do esporte entre a sociedade, mas se não houver efetivo acesso aos equipamentos necessários, a promoção perde o sentido. Contudo, quando se fala em investimento público em esporte, se pensa justamente no contrário, no investimento direto em produção de títulos e resultados, independente do efeito prático que isso traga para a vida da sociedade - afinal, uma medalha em tiro de carabina é igual a uma medalha em natação ou atletismo, o que importa para o país é o número.

Analisando os resultados numéricos, acho curioso imaginar como a vida das pessoas no Cazaquistão, por exemplo, pode ter melhorado depois que o país resolveu investir pesado em uma equipe de levantamento de peso - ou sei lá que modalidade - e ganhou uma boa meia dúzia de medalhas. E se críassemos, no Brasil, o Jiu-jitsu olímpico, com umas dez categorias por peso, masculino e feminino? Vinte medalhas de ouro. O que mais mudaria no país além do patriotismo inflado? Pois bem, e se investíssemos mais nas modalidades já existentes, cujos membros tanto reclamam de falta de apoio, com patrocínios, bolsas e o que mais quiserem, o que mudaria no país? Apenas a idéia de que sim, o governo investe e cuida do esporte, e está fazendo sua parte.
Os bons resultados no esporte são importantes para muita gente em nossa sociedade.
E esse uso institucional do esporte vai exatamente contra a parte boa do esporte. O esporte de competição nem sequer é saudável - primeiro valor do esporte -, já que em nome do resultado se sacrificam até as articulações do corpo. Aliás, boa parte dos grandes patrocinadores oferece produtos que podem ser tudo, menos saudáveis. E boa parte das grandes potências olímpicas tem regimes que dificilmente praticam uma boa inclusão ou justiça social. Mas são altamente favorecidos pela promoção dos resultados.

Pior ainda é não poder falar mal desse assunto - tipo o que estou fazendo agora, mas eu sou um antipático -, já que pega muito mal ser contra eventos esportivos, ser contra nossos atletas, tão esforçados e carentes de apoio. Mais ainda, ser contra nosso país, representado basicamente por chuteiras, luvas de boxe e afins. Mas se toda essa institucionalização do esporte vai exatamente contra os valores do próprio esporte, ser contra isso é ser a favor do esporte, certo? E em tempos que se critica tanto os gastos públicos em estádios e arenas para a copa, por que defender o gasto público em medalhistas e resultados? Para mim, dá no mesmo.

Aliás, quando um atleta "sem apoio" vence representantes de potências esportivas, injetados de dinheiro e cercados de megaestruturas de preparação e condicionamento, antes de pensar que esse atleta vencedor mereceria apoio (seja de Estado, seja de patrocinadores), penso é que os outros que não deveriam ter. Afinal, esporte pelo esporte, não pelo resultado.

terça-feira, 17 de julho de 2012

O Triunfo dos Vagabundos II - O Ócio Feliz e Produtivo

No texto anterior, procurei esculhambar e achincalhar o conceito de trabalho como valor moral da nossa sociedade. Além de pouco simpático de minha parte, pode causar uma certa sensação de vazio. As gerações atuais, mais do que as anteriores, foram preparadas desde cedo para uma vida de trabalho abnegado e de definição existencial com base em uma ocupação ou carreira. A perspectiva de não ter que trabalhar - ou de trabalhar pouco - deixa a maioria das pessoas meio perdida e sem perspectivas. Alguém já disse que devíamos mesmo ser preparados para o ócio - e daí surgiriam naturalmente as vocações, idéias e projetos.

A contribuição da cigarra também conta, pois leva alegria à voluntarioso formiga.
 
Um erro grave, mas comum, que se comete quando o valor do trabalho é relativizado - sempre referindo-se ao conceito mais "tradicional" de trabalho - é acreditar que todos, se não trabalhassem, se tornariam uns inúteis, ou começariam a causar problemas. Afinal, mente vazia é playground do diabo, certo? Isso pode ser um tanto verdade hoje por causa da cultura atual, mas não é próprio da natureza humana. Talvez o próprio desajuste que muitos demonstrem quando em ócio seja devido à sensação inevitável de párias, de menos-que-cidadãos, fruto da cultura vigente. E a maior prova de que esse tipo de juízo é pura convenção é a diferença entre as classes de desocupados. Um rico que não trabalha é admirado e invejado como alguém que sabe viver a vida, mesmo que haja pouco mérito em sua fortuna - exemplos há de sobra. Já um "pobre" que não trabalha, pois vive bem com o pouco que tem (e, por esse aspecto, pode também ser considerado rico), é visto como um parasita social.

A verdade é que as mais significativas contribuições da sociedade costumam ser fruto do ócio. Claro que muitas invenções científicas e avanços tecnológicos devem-se à busca de seus autores por sucesso ou fortuna, mas as mais significativas dentre essas só poderiam ocorrer com uma boa dose de ócio. É aí que aflora a criatividade humana, jamais no stress e nas obrigações do trabalho cotidiano. E a criação que surge da vocação natural é sempre mais inspirada que aquela que surge da necessidade. Basta comparar a música de um verdadeiro artista e a música do artista comercial, feita sob medida para vender.

Outra verdade é que todo ser humano tem alguma vocação natural ou interesse genuíno. Não é necessário que seja algo tão essencial para o resto do mundo. O mundo tem bilhões de pessoas, a contribuição individual de cada um não precisa ser grande, o importante é que seja boa - ou seja, feita com boa vontade, talento e desapego. E somadas tantas diferentes contribuições, há de se encontrar de tudo. Desde que o ócio não seja visto como um raro momento de fuga de uma rotina enfadonha - como é hoje para a grande maioria -, o natural é que as pessoas queiram utilizá-lo para aquelas atividades que elas gostariam mas que normalmente não encontram tempo de fazer.

Sempre vi como verdadeiros heróis aquelas pessoas que, mesmo sujeitas a uma rotina de trabalho diária, encontram disposição em seu tempo livre para dedicar-se voluntariamente a atividades mais altruístas, em prol de um mundo melhor ou de uma sociedade mais justa, cada uma a sua maneira e conforme suas forças. Mas quantas outras pessoas sentem vontade de fazer algo assim, e certamente têm alguma habilidade a oferecer, e não encontram energia no pouco tempo livre que lhes resta? Quantas pessoas se dedicariam a idosos, crianças, pessoas com necessidades especiais, ou ainda ao meio ambiente, espaços públicos, atividades culturais, sempre voluntariamente, sem nenhum tipo de recompensa direta, e se sentiriam realizadas com isso? Aliás, quantas pessoas se sentem realizadas hoje com seus trabalhos?

É sempre uma possibilidade que alguns realmente queiram levar toda uma vida de puro ócio, talvez por falta de vocação, talvez por nunca ter despertado seus interesses. A esses, resta a questão do bom convívio social. Se, de alguma forma, representarem efetivamente um fardo para suas comunidades, serão cobrados por isso e se sentirão pressionados a ter uma atitude mais colaborativa. Mas, se estiverem em harmonia com a coletividade, que mal há? E se há bom convívio social, significa que ao menos nas pequenas ações e atitudes do dia a dia há alguma contribuição. O valor da contribuição de cada indivíduo para a coletividade só pode ser medido pela própria coletividade, e isso acontece naturalmente e segundo as características de cada sociedade.

Existe ainda aquela contribuição social intangível, impossível de ser medida, mas que deveria ser altamente valorizada em uma sociedade moderna, que é a contribuição para o nível geral de felicidade e bem estar. Isso pode ser feito através da arte, entretenimento, diversão, atividades culturais, esportivas, enfim, tudo aquilo que possa ser apreciado individualmente e compartilhado coletivamente.
Pense em tudo que você pode fazer hoje sem sair da cama.

Ou seja, se é verdade que estamos alcançando as condições técnicas para gerar abundância - e acredito que estamos -, deveríamos também já estar buscando essa sociedade mais feliz, solidária, produtiva e criativa. Longe de ser utopia ou devaneio, é uma conclusão lógica quando consideramos a realidade atual despidos de preconceitos, ou de valores éticos que já sobreviveram a seu próprio tempo e não fazem mais sentido prático algum.


terça-feira, 10 de julho de 2012

O Triunfo dos Vagabundos - Redefinindo o Conceito de Trabalho

Há alguns séculos que nossa sociedade ensina com estusiasmo o valor e a importância social do trabalho. Desde o sujo chão de fábrica da revolução industrial até o moderno executivo do mundo dos negócios, geração após geração cultivou a noção do trabalho como algo central para a existência humana e para o próprio sentido da vida. Por certo que isso foi de grande valia para a fantástica geração de riqueza e conhecimento que vemos hoje no mundo. Mas, com toda a mudança experimentada pela humanidade, produzida com todo esse trabalho, esse conceito permanece o mesmo? Qual é hoje o significado de Trabalho - e qual sua real importância para a sociedade?
Seu Madruga já dizia: o ruim é ter que trabalhar.

Não vou discorrer novamente sobre a tecnologia moderna e tudo o que ela pode nos proporcionar. Sou repetitivo mas não tanto. Mas fique claro o que acredito sobre a tecnologia: possuímos hoje todas as condições físicas e técnicas de automatizar quase tudo, com certeza os processos industriais e logísticos e provavelmente quase todos os procedimentos administrativos e burocráticos dos serviços públicos. Aliás, temos condições até de automatizar o próprio processo de automação - pode ser uma frase mal construída, mas é verdade. Sistemas que gerenciam sistemas, robôs que fabricam robôs, tudo isso já existe, e funciona.

A automação é uma questão central para o desenvolvimento econômico e social. Os ganhos de eficiência e qualidade tão necessários a uma sociedade sofisticada passam necessariamente pela redução da intervenção humana nos processos administrativos e produtivos. Sim, o ser humano é falho, limitado, sujeito a cansaço, frustrações, emoções, tudo isso nos torna mais interessantes e combater essas características nos tornaria menos humanos. Mas preferimos não ter falhas e defeitos em nossos produtos e serviços, certo? A automação pode resolver esse problema - se não totalmente hoje, é só questão de tempo.

Claro que alguns serviços importantes, como aqueles relacionados à saúde ou assistência, ainda precisarão da ação humana, mas mesmo nesses casos a tecnologia disponível reduz sensivelmente a necessidade de mão de obra - e melhora sensivelmente o resultado final. Se hoje não temos uma maior automação em nossos serviços, é porque combatemos o avanço da tecnologia sobre nossos empregos. Para que? Para não ficarmos desempregados. Mas para que precisamos estar empregados então?

Nossa sociedade se constituiu a partir do valor central do trabalho, e pensamos e organizamos nossas vidas em torno de nossos trabalhos, a ponto de não ser considerado um sujeito completo aquele que não trabalha - no conceito mais tradicional do termo. Mas a realidade em que esse valor se criou já não existe mais, na verdade praticamente se inverteu: a mão de obra humana não apenas é incapaz de trazer grande contribuição mas também prejudica o avanço tecnológico disponível. Considerada a necessidade de abrir espaço para a automação, para dar maior qualidade a produtos e serviços, pode-se quase dizer que abster-se de trabalhar já é em si uma contribuição à sociedade.

Sendo o trabalho humano desnecessário na prática, não faz sentido mantê-lo artificialmente apenas para dar sentido à existência - afinal, não há um sentido para ser dado. Claro que há muitos outros conceitos de trabalho, que podem ser usados e são muito mais significativos para o mundo atual do que o conceito tradicional. Um voluntário que ajuda doentes ou crianças carentes, um ativista ambiental ou simplesmente o cidadão comum que se mobiliza por causas coletivas fazem muito mais pelo mundo do que um trabalhador assalariado típico. A grande diferença está na motivação - e na necessidade.

Mas nem é o caso de questionar quantos se dedicariam a alguma causa ou finalidade que fizesse jus a sua existência. Apesar de que suspeita-se de que sim, muitas e muitas pessoas se dedicariam às mais nobres necessidades humanas por simples vocação pessoal. Voluntariado, como o nome sugere, deve ser algo expontâneo de cada um, a ser feito como e quando se aprouver, e também não teria sentido de outra forma. Então também não é isso que substitui a razão da existência.

A razão da existência seria provavelmente a simples existência em si, de preferência em harmonia e coexistência com seu meio e seus semelhantes, cada um cuidando de seu habitat e de sua comunidade, mas também de si mesmo e do seu próprio espírito. Tendo a automação para fazer por nós tudo aquilo que não nos agrada fazer expontaneamente, teríamos tempo de sobra para todo tipo de ação voluntária ou social, mas também para nos dedicar a tudo aquilo que nos agrada e dá graça à existência. Teríamos uma sociedade de músicos, artistas, escritores, boêmios, esportistas, pessoas criativas e felizes produzindo coisas bonitas e divertindo-se uns com os outros. Seria muito espírito de porco preferir o trabalho a isso, mesmo sabendo esse trabalho não ser lá muito necessário.

Ainda hoje, vemos certo preconceito em relação a pessoas que não têm um emprego ou empreendimento com fins econômicos. Há termos pejorativos para quem vive com pouco e trabalha pouco, e pouca admiração por aqueles que se dedicam a causas altruístas. Mas o pior ainda é reservado para aqueles que dedicam-se a curtir a vida, viver bem e fazer o que gostam: vagabundos. Não é inveja, é o valor ultrapassado do trabalho como finalidade da vida, tão enraizado que está. Pois então para que trabalhamos esses últimos séculos senão para gerar as condições sociais e econômicas que permitem nos dedicarmos aos prazeres da vida e celebrarmos a existência humana? Essas condições estão sendo rapidamente alcançadas, então podemos começar também a mudar nossos valores.

O espírito humano realmente livre - livre de valores ultrapassados e convenções sociais - é o mais criativo de todos, capaz de criar maravilhas e genialidades. Em uma sociedade de espíritos livres, podemos esperar grande riqueza cultural, artística e científica, mas também uma grande melhora no convívio social, na saúde mental e na realização pessoal. E, provavelmente, um aumento significativo no trabalho voluntário e no envolvimento em causas comuns - o que realmente muda o mundo para melhor hoje -, mas isso ainda não será o objetivo da vida, e sim uma consequência de uma sociedade mais saudável.
Se houvesse comida e abrigo para todos, certamente que a formiga se uniria à cigarra, para juntas celebrarem a alegria de viver

Até aqui, esqueci propositalmente a questão financeira. Claro, ainda que se concorde com tudo acima, resta a questão do sustento, da sobrevivência em uma sociedade voltada para o capital. Pois bem, essa é a questão que fica: a grande maioria trabalha hoje uma vida toda em empregos desagradáveis, de pouca contribuição social e ainda menos satisfação pessoal, não por valor ou virtude, mas por imposição de mercado, por uma convenção do sistema vigente. Entender isso já é um ótimo primeiro passo para começar a buscar a sociedade que gostaríamos de ter, e não a que achamos que precisa ser.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tempo de Semear: O Exemplo dos Pequenos


Recentemente, vimos as grandes burocracias do mundo reunirem-se na Rio+20 e baterem suas cabeças por dias para produzir um inócuo documento que já nasce com 20 anos de atraso. E isso em uma época em que multiplicam-se os exemplos de ações espontâneas de pequenos grupos no mundo todo que, dentro das possibilidade de cada grupo ou comunidade, contribuem para melhorias efetivas nas condições sócio-ambientais dessas comunidades. O que as grandes burocracias mundiais não conseguem sequer colocar no papel, pequenos grupos auto-organizados vêm praticando com cada vez mais desenvoltura. O paradigma das organizações é que os grandes já não podem competir com os pequenos.

Outro exemplo bem recente e significativo vem da Europa, mais especificamente da Grécia em crise. Com sua economia nacional afundada e o cenário político descendo no vácuo, a Grécia não encontra em seus órgãos estatais, partidos ou corporações qualquer resposta útil para sair de sua sinuca. Ao mesmo tempo, surgem do interior de sua sociedade exemplos de pura criatividade e inteligência colaborativa. Como no caso da cidade de Volos, que instituiu uma moeda própria para reativar a economia local independente do Euro; ou o caso dos pequenos produtores rurais, que começaram a organizar-se em redes com seus consumidores, eliminando a intermediação e custos logísticos, reduzindo sensivelmente o valor final dos produtos.

Grandes instituições encontram-se emaranhadas em normas, regulamentos, políticas, as linhas de comunicação são restritas e os interesses são difusos. A burocracia intrínseca a uma instituição não é tão nociva a seu funcionamento quanto a degradação de seus interesses. À medida em que se institucionaliza, ela se distancia de seus objetivos mais diretos em favor de objetivos políticos, que são essencialmente desvios de finalidade em qualquer problema concreto.

É exatamente o caso da diplomacia internacional, seja na Rio+20 ou na ONU. Há muitos interesses a serem resguardados, outros que não devem ser melindrados, e uma simples carta de intenções ou coisa que o valha acaba sendo um exercício de palavras vazias. Bastante efetivo, não? Tendemos a criticar o Estado como a típica organização burocrática e ineficiente, mas grandes organizações em geral são assim quando tratam de interesses mais coletivos, de retorno difuso.

Já os pequenos grupos, geralmente horizontais e auto-organizados, são o que há de melhor em termos de organização ágil e efetiva. Utilizando-se das ferramentas de mídia e do amplo acesso a informação e conhecimento, rapidamente identificam problemas, necessidades, possíveis soluções e estratégias. Identificado o interesse comum, reúnem os recursos possíveis - essencialmente humanos, além do conhecimento aplicado e da energia colaborativa - e arregaçam as mangas. De um dia para o outro se realiza uma intervenção urbana, uma ação de recuperação ambiental ou um projeto de economia solidária. Ações reais, de resultados concretos, tão próximas quanto possível da realidade e das necessidades de cada local.

Em termos globais, cada ação local é quase nula, sim. Um mutirão de limpeza em uma praça não torna o mundo mais limpo. Um projeto de economia solidária em uma comunidade isolada não torna o mundo menos pobre. É o grão de areia no deserto, a gota d'água no incêndio. Mas as pequenas ações não valem por seu resultado imediato. Elas valem pelo poder de seu exemplo. E isso tem valor inestimável na sociedade atual, carente de bons exemplos, respostas, soluções concretas. Cada ação que se realiza semeia uma idéia, um valor, atitudes, demonstra às pessoas a capacidade que está nelas mesmas para tomar iniciativas e resolver problemas, prova que é possível não depender das burocracias globais para resolver as questões sociais e que a viabilidade de ações auto-organizadas vem do grau de adesão e comprometimento dos indivíduos.

Semear é algo poderoso. Considerando as facilidades contemporâneas de comunicação e interação social, o potencial de multiplicação é incalculável. As redes sociais não podem mudar o mundo, mas as ações que se realizam e se disseminam através delas podem, e já estão fazendo isso. Limpar uma praça ou o mundo todo é apenas uma questão de escala, de quantos indivíduos se envolvem na solução do problema. Multiplicando-se, grãos de areia se transformam em tempestade e gotas d'água se transformam em enxurrada. Palavras ao vento jamais atravessarão o jogo de cena da política global, mas os grãos de areia das pequenas ações percorrem o mundo e semeiam idéias que seguem se multiplicando - até mudarem o mundo.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Eleitor como Mercado e O Voto como Produto

As eleições desse ano têm tudo para ser um espetáculo. Por espetáculo, não entende-se necessariamente algo bom ou bonito. Talvez algo pensado para encher os olhos e, com algum esforço promocional, alguns corações. Nada que contribua para alguma melhora na política nacional ou na administração pública. Apenas a coroação da longa preparação dos marqueteiros profissionais para fazer exatamente aquilo que sabem: transformar a "festa da democracia" em uma mera ação de propaganda e marketing.

Não é de hoje que se empregam marqueteiros em campanhas eleitorais, aliás essa prática até já encheu. Mas virou uma ciência, e os candidatos parecem mais encantados do que nunca com ela. O negócio é segmentar o mercado - digo, o eleitor - e investir de forma proporcional ao peso de cada segmento, tentando estabelecer empatia com cada um. Em outras palavras, dizer o que cada um gosta de ouvir e prometer o que cada um gostaria de ter. E quando a gente acha que todo mundo já está tapado de nojo com a política e nem aguenta mais nada, eis que o povo nos surpreende e cai em toda essa conversa. Porque estão acostumados a ser tratados como segmento de mercado, e gostam disso sem nem saber.

A segmentação é livre. Vale gênero, faixa etária, etnia, religião, profissão - até mesmo a causa social de sua preferência, algo que deveria ser nobre demais para ser alvo de marketing eleitoral. Mas é tudo questão de criatividade. E é fácil. Um candidato que já está no poder, por exemplo, precisa de apenas dois neurônios para criar uma "Secretaria do Idoso", um "Gabinete de Políticas para o Jovem", a "Secretaria da Mulher" e por aí afora (e o candidato de oposição diz que ainda vai fazer muito mais: O "Escritório da Acessibilidade" e o "Gabinete da Bicicleta"). Não que algum desses grupos sociais tenha problemas que sejam resolvidos pela criação de burocracias estatais. Talvez alguns deles sequer tenham problemas que percebam como especificamente seus. Mas gera empatia, tipo, a sensação de que se lembram da gente e que se importam - pelo menos o suficiente para criar mais alguns cargos e tirar umas fotos.

Claro que os problemas que um governante eleito deveria tratar, prioritariamente, são aqueles que dizem respeito à coletividade e afetam a todos. Mas esses são mais difíceis e não geram empatia. Já grupos bem segmentados podem ser atendidos com marketing direcionado. Crie o "Dia do Profissional disso" ou o "Dia em Defesa daquilo", sai barato e não é nada difícil. Nada efetivo também, mas enfim, o que esperar de uma ação de marketing?

Na verdade, essa segmentação do mercado, digo, eleitorado, e das políticas públicas é algo de efeito hediondo, se gasta dinheiro, se rotula as pessoas em grupos sociais cada vez mais apartados, que vão competir entre si pelo dinheiro que se gasta e depois ainda se gasta mais dinheiro para fazer todo o marketing em cima do dinheiro que se gastou. E o produto final é a falta de recursos para tratar os reais problemas, e uma sociedade politicamente fragmentada, incapaz de analisar o quadro geral das coisas e de priorizar os interesses maiores acima dos menores.

Ora, uma sociedade - instrumentalizada por seu respectivo Estado - que seja capaz de priorizar e resolver os problemas mais essenciais, aqueles que acabam gerando os demais, produzirá em médio prazo melhorias e benefícios para todos os grupos sociais, sem precisar segmentá-los - talvez, até pelo contrário, aproximando-os em torno de objetivos comuns. Mas isso não é marketing, é administração pública de verdade, e o sistema político-partidário não é administração pública de verdade, é marketing.

Uma campanha eleitoral não deixa dúvidas de que marketing é o verdadeiro negócio e vocação dos políticos profissionais, e enquanto é mais fácil, barato e efetivo produzir esse marketing do que tratar problemas de verdade, é apenas nisso que essas pessoas concentram seu tempo e energia. Por incrível que pareça, ainda funciona. Já existe até a consciência da ineficiência do Estado e sua incapacidade, até falta de vontade, de tratar os grandes problemas. Mas o marketing ainda funciona. Por que? Porque gostamos de ser segmentados e rotulados, tratados como mercado, ouvir o que gostamos e sentirmo-nos lembrados. Gera empatia.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Negócio é Proibir

Recentemente, ganhou algum destaque a discussão sobre descriminalização, sobretudo do consumo de drogas. Enquanto para alguns o avanço (de um ponto de vista progressista) parece tímido demais para maiores debates, para muitos parece ainda uma questão especialmente polêmica essa de não criminalizar indivíduos por certos hábitos de consumo - não por possíveis consequências desse consumo ou algum prejuízo a terceiros, mas o mero consumo por si só. E me impressiona o aparente tamanho dessa parcela da população pró-criminalização. Em bom português, a favor da repressão, da proibição, do cerseamento da individualidade.



É certo que alguns hábitos individuais podem provocar ações prejudiciais a terceiros, sobretudo se alteram a consciência e o auto-controle. Se o indivíduo não sabe manter para si os efeitos de seus atos, deixa de ser uma questão individual para se tornar coletiva, e passível das devidas sanções sempre que causar danos a terceiros ou à coletividade. Até aí nenhuma dúvida. O interessante é centrar toda preocupação na questão individual e antecipar a condenação ao indivíduo por atos que ele poderia ter praticado, mesmo que, na verdade, não o tenha.

É uma prática discriminatória, pois os mais diversos hábitos e comportamentos são, de alguma forma, potencialmente ofensivos. Quem é mais perigoso, o motorista altamente estressado ou o consumidor moderado de álcool? A pessoa que é violenta ou a que usa maconha? O que deve ser proibido ou não são essencialmente convenções. Por regra, proíbe-se o que foge ao status quo e isso independe do potencial ofensivo das eventuais consequências.

Sendo, portanto, todos e cada um de nós passíveis de condenações e restrições, independente da individualidade de nossos atos, é interessante que a prática da proibição e da criminalização seduza uma maioria tão considerável. É uma prática extremamente ineficiente, em qualquer sentido, e isso precisa ser compreendido antes de mais nada. Cada um acaba por fazer o que quer, proibido ou não. Pegando o gancho do assunto em voga, consumo de drogas, quem quer consumir consome - a diferença é que em vez de adquirir no comércio adquire com o crime. E quem quer vender vende - mas em vez de tornar-se um comerciante torna-se um criminoso. A proibição não coíbe a prática, apenas a criminaliza.

Ainda nesse exemplo, é fantástico o volume de recursos empregados na repressão ao tráfico, humanos, financeiros e materiais. Sem falar na manutenção dos presídios e casas correcionais, superlotados principalmente graças à criminalização das drogas. Sendo o Estado um só, esses mesmos recursos deixam de ir para educação, saúde e inclusão social. Áreas que poderiam gerar algum resultado em longo prazo, ao contrário da ação policial, que enxuga o gelo. É mais econômico, eficiente e sustentável tratar a dependência como problema de saúde, tratando o tráfico como qualquer outro comércio, passível de alguma regulação e fiscalização quanto a abusos.

A criminalização das coisas gera emprego e renda, essa é a verdade. Muitos são os negócios que se criam e prosperam na chamada guerra às drogas. Como o consumo, de qualquer forma, acontece, e o gasto do Estado também, o dinheiro rola - muitas vezes em mãos pelas quais, de outra forma, não rolaria. Todo um conjunto de interesses se levanta a favor da manutenção da proibição e da repressão, e não são interesses limpos.

Contudo, esses interesses só se sustentam em toda a ineficiência que impõem à sociedade porque encontram suporte nessa mesma sociedade. A fonte desse mal é a curiosa tendência do ser humano em julgar o próximo, para depois reprovar e finalmente recriminar. A aceitação a restrições de liberdade parece ter duas explicações: a vaga noção de que quem é diferente é errado, e potencialmente perigoso ao estilo de vida "correto"; e a idéia de que essas restrições pesarão mais para os outros, pois estão errados, e são necessárias para proteger os "corretos". Mais curioso ainda é observar que essas restrições comprometem todos os estilos de vida, direta ou indiretamente.

É uma história velha e mofada, mas pelo jeito ainda atual. E, verdade seja dita, é a trilha do fascismo. Cada passo na direção da proibição e da repressão de Estado é um passo na direção de um Estado e de uma sociedade fascistas. Não é necessário dar muitos passos nesse caminho, cada passo já é ruim. E o sentido oposto não parece mal. Seria a coexistência, a aceitação das diferenças, a concentração de esforços e recursos na real solução ou tratamento dos problemas sociais - e sim, eventualmente na criminalização e combate daquilo que for realmente ofensivo.

A prática da coexistência requer partilha de espaço e de liberdade entre os diferentes indivíduos, geralmente restando menos espaço para cada um do que se gostaria, já que são muitos e muito diferentes esses indivíduos. Mas a aceitação de soluções repressivas também acaba restringindo esse espaço, não por redistribuí-lo mas por eliminá-lo. Péssima solução. Pior ainda por gerar um círculo vicioso: quanto mais as pessoas são perseguidas ou reprimidas, mais violentamente elas respondem à sociedade, dando mais motivo para a causa da repressão.

Por fim, às opiniões mais ferozes, fique claro que não se trata, aqui, de "defender bandido", mas de preservar o espaço e liberdade do outro na mesma medida que eu espero que se preserve o meu, e de não se ter tanta pressa em recriminar e perseguir qualquer coisa, guardando essa energia e recurso para os verdadeiros bandidos - e, principalmente, para reais soluções aos verdadeiros problemas sociais.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Engenharia de Tráfego Moderna: um case de caos urbano

Moro em Porto Alegre, uma cidadezinha no remoto sul do Brasil. Apesar de pequenina e provinciana, Porto Alegre tem a infelicidade de suportar sobre sua superfície 1,5 milhão de criaturinhas humanas, sendo que toda a área metropolitana apresenta aproximadamente o dobro desse singelo número. Aproximadamente mesmo, quase se esbarrando um no outro. É bastante gente se mexendo e fazendo barulho para todo lado. Uma verdadeira maravilha do Brasil moderno.



Em minha cidade, não reclamamos muito de falta de metrô, tramway, Brt... Afinal, somos brasileiros, e isso é tudo coisa de europeu fresco. Para nós, transporte público é coisa de pobre, é o bumba, chacoalhando o povo por duas horas entre o centro e o bairro. Agora, experimenta botar semáforo na rua para ver se não viramos feras dentro de nossos carros. E nem adianta, pois nossa cidadezinha não paga imposto para botar semáforo - aqui chamamos de sinaleira, que é mais pitoresco. Tem sinaleira embaixo de viaduto, em volta de rotatória, a cada dez metros em vias expressas, enfim, nossa criatividade permite colocarmos sinaleira em quase qualquer lugar. E nosso gênio ruim faz com que amaldiçoemos as mães de todos aqueles que as colocaram.

Pois bem. Atualmente, uma mega ação de intervenção urbana da prefeitura espalha semáforos em torno das principais rotatórias da cidade. Antes de mais nada, registre-se minha opinião técnica e bem balizada sobre o assunto: rotatórias com semáforos em volta parecem um forte sinal de que algo vai meio mal na engenharia de tráfego. Tipo, tecnicamente falando, uma verdadeira bicheira de engenharia de tráfego. Mas, sabe o pior? Era necessário.

Nessa pacata cidade, vale a lei do mais forte. Aqui, entenda-se que a massa de um carro multiplicada por sua velocidade lhe confere energia cinética. Quem detém a maior energia cinética tem a preferência em uma rotatória. E pode ser bem difícil decidir isso no calor do momento, cada um correndo para chegar mais rápido ao próximo congestionamento. Nossas rotatórias são um desafio à boa convivência de nossos calmos e bem equilibrados motoristas. E pior ainda para os pedestres e ciclistas - sim, pois, pasmem os habitantes de outras realidades, essas calamidades do trânsito costumam ficar em áreas de grande circulação de pedestres. Atravessar uma rotatória é arriscar a vida, já que pedestres e ciclistas têm uma energia cinética que nem merece respeito.

Foi necessário, e bem feito. Bem feito para os muitos motoristas que abusam de sua energia cinética nesses locais, e não demonstram quase nenhum respeito pela pele dos mais indefesos. Aproveitem a parada em frente aos semáforos para refletir sobre a vida.

Essa singela parábola do motorista portoalegrense, que desrespeita o pedestre e depois esmurra o volante quando tem que parar em um semáforo, representa bem a problemática de muitas das questões urbanas modernas: ação e reação, yin e yang, o que vai volta, e o que você faz é o que você recebe. Jogue lixo nos bueiros e sofra com os alagamentos; desrespeite as regras de convivência no trânsito e sofra com o trânsito precário; apóie o fechamento de bares e atrações de lazer em nome de seu sossego, depois sofra com a falta de opções de lazer na cidade.

Uma cidade é mesmo recheada de criaturinhas humanas dos mais diversos naipes e gênios - quase todos ruins. Aliás, não o fosse, não mereceria o nome de cidade. No máximo, vilarejo. Na verdade, essa diversidade é o que gera riqueza cultural e desenvolvimento humano a uma cidade - diferentes idéias, visões de mundo, experiências de vida, tudo convivendo junto em um único espaço e tal... Mas se houver a tal convivência. Na sociedade de consumo, aprendemos a valorizar nosso espaço, nossa casa, nosso carro, nosso ar, nosso silêncio... Mas em uma cidade grande os espaços não são tão individualizados assim. Nem tem como ser. Milhões de criaturinhas inquietas e barulhentas? Mude-se para o campo ou para a praia - uma das bem pequenas.

E pela própria lei de ação e reação, quanto mais se tenta fechar o espaço de uma tribo urbana, geralmente daquelas mais chatas e barulhentas, mais ela reage incomodando e fazendo barulho. Quanto mais os carros tomam espaço da cidade, mais os demais grupos tendem a invadir esse espaço. E quanto maior o confronto entre diferentes grupos de interesses, maior a regulação e restrição para todos.

Uma cidade grande deveria ser capaz de acomodar a todos os grupos se preservado o interesse comum. Uma boa rede de transporte público atendendo à grande maioria libera espaço suficiente para todos os demais, sejam motoristas, pedestres ou ciclistas. Uma boa quantidade de espaços de convívio e lazer permite opções a todas as tribos, sem disputa por espaço ou invasão das áreas de sossego. E assim vai, essa é a idéia. Mas tudo isso demanda que se pense no bem comum antes do particular. Yin e yang, o que vai volta. Aquilo que você faz é o que você recebe.

A engenharia de tráfego moderna é um ótimo exemplo do quanto é inviável tratar nossa falta de capacidade de convivência na marra. Enquanto cada um se preocupa com seu próprio espaço, tape-se a cidade com semáforos, viadutos, quebra-molas, barreiras, e assim fica ruim para todo mundo e não fica bom para ninguém. Não deixa de ser democrático. Claro que seria melhor enfrentar nosso gênio ruim e desenvolver o respeito mútuo e a prática da coexistência. Mas somos mesmo criaturinhas muito barulhentas.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Uma Economia Baseada em Recursos: Um Estudo da Vida Real de Culturas Isoladas (tradução PT-BR)

Traduzido por mim, com a maior fidelidade possível, a partir do original em inglês "A resource-based economy: A real life study of isolated cultures", publicado em 17 de março de 2012 por Mikael Wafin (se você, assim como eu, não confia em tradutores como eu, chega lá!).


"Eu estava assistindo a um documentário da BBC sobre o Pacífico Sul, no qual são mostradas diferentes ilhas isoladas nesse oceano e como elas tem sobrevivido com pouco ou nenhum contato com o mundo moderno. O programa apresentou a fascinante Ilha da Páscoa com suas famosas estátuas de pedra chamadas Moai."

"A Ilha da Páscoa era florescente em seus primeiros anos de colonização humana com largas florestas e grandes colônias de aves. Mas com o excessivo corte de árvores e caça de aves, muito da floresta frondosa e todos os pássaros nativos vieram à extinção. O corte excessivo da floresta foi forçado principalmente pela competição entre as tribos nativas quanto a qual delas iria criar a maior estátua de pedra, já que eles precisavam das árvores para transportar as estátuas pela ilha. Essa ignorância do conceito de conservar os recursos existentes resultou em um grave declínio da população e teve um impacto extremo na sobrevivência dos habitantes nativos e das gerações futuras. Hoje a Ilha da Páscoa ainda encontra-se despida das antigas e poderosas florestas."

"O documentário seguiu em frente para examinar outra ilha isolada do Pacífico Sul chamada Anuta. Anuta tem praticamente as mesmas condições da Ilha da Páscoa, isolada e vulnerável com seus recursos limitados. A diferença entre Anuta e Ilha da Páscoa é principalmente a atitude cultural. Enquanto as antigas culturas da Ilha da Páscoa tinham uma atitude competitiva uma com a outra e pouco respeito pelos recursos existentes, a população de Anuta é o oposto. Consideração pelos outros é a espinha dorsal do povo anutano. Eles têm uma filosofia chamada 'Aropa', que é um conceito de doar e compartilhar com os outros e é uma linha guia para como tratar um ao outro. Um exemplo dessa filosofia é que toda família na ilha recebe uma unidade de terra para cultivar comida para alimentar-se e também àqueles a sua volta. Eles estão bem cientes da escassez de recursos e da importância de cuidar um do outro. Eles sabem o que têm que fazer a fim de sobreviver e prosperar."

"É bastante óbvio qual atitude cultural é a mais sustentável. Os fatos e os exemplos da vida real estão aí. Competição e crescimento infinito dentro de um sistema finito não eram, não são e jamais serão sustentáveis. Se ao menos pudéssemos aprender com as experiências dessas ilhas isoladas, poderíamos mudar a inevitável destruição de nossa ecologia, que vem sendo preparada para nós pelo corrente sistema de mercado monetário."


Agora, alguns comentários...

Claro que o exemplo de uma pequena ilha isolada no oceano não pode ser tão diretamente aplicado ao mundo todo. A evidência gritante da limitação de recursos favorece o desenvolvimento de uma consciência adequada a essa realidade, e o estilo de vida que se desenvolve nesse cenário é obviamente muito mais simples. Mas o mundo como um todo também é limitado em seus recursos, e em algum momento eles atingem a exaustão. Recursos mais abundantes e mais diversificados até propiciam um estilo de vida mais sofisticado e complexo, mas se não houver um equilíbrio o esgotamento é questão de tempo. Ou seja, a diferença entre uma ilha e o mundo não é de princípio, mas de escala.

Além do mais, destaca-se a diferença entre as duas ilhas. Se os anutanos viram o óbvio da sua realidade, por que os habitantes da Ilha da Páscoa, capazes de fazer maravilhas, não viram essa mesma realidade antes que fosse tarde demais? E de que serviram suas grandes realizações depois que seu ambiente já encontrava-se devastado? Não estaria a humanidade como um todo nesse caminho? Em outra escala, claro.

O autor mostra-se bastante conciso em sua narrativa (afinal, em tempos de twitter e facebook, ninguém lê nada com muito mais de meia página), mas observa-se nas entrelinhas que compartilhamento e colaboração foram as formas encontradas de lidar com poucos recursos e evitar o desperdício. Cada família utiliza os recursos na dimensão de sua necessidade e compartilha com os demais na medida de sua possibilidade. Acumulação, tanto de produtos como dos meios de produção, seria inviável nessa sociedade, pois forçaria os menos favorecidos contra a conservação dos recursos naturais, comprometendo as gerações futuras.

Em tempo, não assisti ao documentário e não, nunca estive em Anuta ou Ilha da Páscoa. Mas mesmo que isso fosse uma fábula de ficção, ainda assim faria sentido, e é o que importa.

Fontes (conforme o original):

Feinberg, R (1988)
'Polynesian Seafaring and Navigation: Ocean Travel in Anutan Culture and Society.' Ohio: Kent State University Press.

A. Strathern, P. Steward, L.M. Carucci, L. Poyer, R. Feinberg, C. Macpherson (eds) (2002)
'Oceania: An Introduction to the Cultures and Identities of Pacific Islands.' NC Carolina Academic Press.

Feinberg, R (2004)
'Polynesian Life ways for the 21st Century. Prospect Heights,' IL: Waveland Press.

Paper discussing socio-political change on Anuta, Feinberg, R (1982)
(PDF document)
http://patriot.lib.byu.edu/PacificStudies/image/10910221792004_vol_5_no_...

http://en.wikipedia.org/wiki/Easter_Island

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Estado de Ineficiência e A Cultura do "Faça Você Mesmo"

Este texto mais ou menos segue um outro anterior, Sociedade da Ineficiência, onde tentei esmiuçar o "problema". Agora, tento analisar mais as soluções.


A ineficiência observada no mundo atual é não apenas proposital como também necessária aos sistemas econômicos vigentes. Dos problemas e carências, reais ou induzidos, advêm as oportunidades de negócio e geração de renda - assim como, em consequência, a concentração de poder político e econômico. Ou seja, os grandes detentores de poder são também os mantenedores dos grandes problemas mundiais. Vide a grave crise financeira tão alardeada, em contraste com a riqueza desmedida dos senhores das finanças. Ou, ainda, a miséria das guerras, em contraste com a prosperidade da indústria armamentista e das grandes empreiteiras que atuam na "reconstrução" de países.

Essas forças e interesses convergem e se materializam no Estado Moderno, dominado e pautado por lobbies, financiamentos de campanha, corporativismos e classismos. Disperso em questões menores, embromador em questões maiores e omisso dos grandes problemas. Enfim, ineficiente por vocação e destino. Alguns ainda acreditam na força do voto para melhorar a representação política e a atuação do Estado. Abençoados sejam em sua esperança, mas minha opinião já registrei anteriormente aqui no blog.

Algum Estado há de ser necessário, presume-se. E o "Estado mínimo" é aquele que menos faz e mais deixa fazer - o problema é quem e o que. Entes privados ou auto-organizados tendem a ser mais eficientes que o Estado, mas na consecução de seus próprios objetivos. Se esses entes são os mesmos que, indiretamente, já governam hoje os Estados, os resultados que já são ruins para a sociedade tendem a ser piores. O Estado só será mais eficiente para a sociedade se for diretamente controlado por essa sociedade - em outras palavras, se a sociedade tomar as rédeas e tornar Estado o conjunto de suas decisões e ações diretas, sem intermediação.

A prática do "Faça Você Mesmo" (do it yourself, no original em inglês) ainda é recente, mas se alastra rapidamente e vem demonstrando o quanto é possível essa ação direta da sociedade. Munidos das modernas ferramentas de comunicação, grupos independentes se formam no exato instante em que surge um problema a ser tratado. Em pouco tempo, trocam idéias e elaboram uma solução, partindo em seguida para sua execução. Dependendo do tamanho do problema, o grupo que se forma pode ser bem maior, e consegue até mesmo reunir recursos materiais e expertises técnicas que se façam necessárias. Se esses grupos encaminhassem seu problema, já com a proposta de solução, para uma prefeitura ou qualquer outro órgão público, em quanto tempo teriam uma resposta? E quanto tempo mais para iniciar a execução? E para concluir o trabalho, se chegar a ser concluído? Agindo de forma direta, um grupo bem organizado faz acontecer de um dia pro outro. E grupos que se reúnem em torno de objetivos claros e interesses genuínos costumam ser muito bem organizados.

O primeiro passo para fazer isso acontecer é entender que não se deve esperar pelo Estado. Aliás, a melhor forma de pressionar o Estado a fazer é fazer por ele, apresentando concorrência. A regra é: se você mesmo pode fazer aquilo que necessita, então faça. Claro, uma discussão prévia com vizinhos e concidadãos é de bom tom, e esse seria o segundo passo. Esse é fácil. As redes sociais tornaram bastante natural o contato direto das pessoas em grandes grupos ao mesmo tempo. Se todas se interessarem de alguma forma por um tema, se envolverão. A maioria dos temas que envolvem necessidades de uma comunidade ou vizinhança tendem a ter consenso rápido. Por exemplo, se quero limpar uma praça, fechar buracos de uma rua ou recuperar um calçamento, difícil alguém ser contra, certo?

Por fim, estando todos corresponsabilizados pelo problema e entendidos quanto à solução de consenso, vem a execução. Como um problema comum a muitos tende a interessar muitos, se todos se envolverem e cada um fizer sua parte, não fica pesado para ninguém. Mesmo que necessite de recursos, como material ou equipamentos, um grupo grande com bons contatos (novamente as redes sociais tornam isso fácil) corre atrás e levanta o que precisa a custos acessíveis.

Em se disseminando essa prática, e as pessoas desenvolvendo as habilidades do trabalho colaborativo e da discussão em rede, podemos pensar em realizações cada vez maiores e mais complexas. Não há impedimento técnico, é uma questão de escala. Em um grupo com milhares de pessoas, quantos médicos, engenheiros e empresários haverá? Com acesso cada vez mais fácil aos mais diversos recursos e tecnologias, o que seria inviável a esse grupo? Minha teoria é de que, conforme a escala de adesão das pessoas, dá para fazer qualquer coisa que um órgão público faria (melhor e muito, muito mais rápido e barato), substituindo aos poucos o Estado tradicional por uma sociedade auto-organizada em rede. Seria o futuro da administração pública - nesse caso, pública de verdade.

O Estado, tal como é hoje, há de ser mais um obstáculo do que um facilitador do processo. Lógica da concorrência ao invés da colaboração. Estados são instituições, e como tal lutarão de forma egoísta por sua sobrevivência. Mas, por sua própria lógica legalista, utilizam as armas erradas: muitas vezes, tentam prender, reprimir ou processar os cidadãos que arregaçam as mangas como se fossem vândalos ou desordeiros. Tática suicida, pois grupos cada vez maiores se envolvem nessa rede de colaboração e proatividade. Lutar contra significa ir contra a própria sociedade - e o que é um Estado que vai contra sua sociedade?